OCARINA OF TIME – Uma História Atemporal

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OCARINA OF TIME – Uma História Atemporal

Mensagempor Dinofauro Rei » Sex, 27 Jul 2018, 19:51

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O que há para se dizer sobre Ocarina of Time já foi dito, mas como a experiência de cada jogador é algo único, vou fazer uma análise bastante pessoal (e um pouquinho melodramática, admito) sobre a fascinante temática desse saudoso game.

Zelda é atemporal. Essa frase é verdadeira pensando na franquia como um todo, seja pelo fato de em 2018 pessoas estarem jogando Zelda através de versões modernas do jogo como Breath of the Wild, ou jogando versões clássicas através dos mais diversos meios, ou até mesmo jogando games com elementos retirados da franquia, como The Binding of Isaac.

Mas essa afirmação tem um significado especial quando pensamos em Ocarina of Time, jogo que marcou a bem sucedida transição da série para 3D e está para completar 20 anos.
Ocarina of Time (OoT) é tido por especialistas não só como um dos melhores jogos de seu console, como também um dos (até mesmo "o") melhores jogos de todos os tempos. Mas deixando um pouco de lado os aspectos técnicos que justificam essa decisão, vou me concentrar mais no que eu considero o grande marco desse primoroso jogo: A exploração da escolha temática.

Bem, essa é a história de um jovem corajoso dotado de uma habilidade especial, que no decorrer de muitos desafios, enfrentará e (nem se pode dizer que é um spoiler) vencerá ao final dessa aventura, um maligno vilão. Qualquer um que não tenha jogado esse jogo se perguntaria em quê OoT se diferencia da narrativa de outros 90% dos RPGs japoneses que contam essa mesma premissa em seus enredos. Uma história bem construída não depende exclusivamente da originalidade do seu roteiro ou de reviravoltas na trama; em OoT, a bela forma como a narrativa e a aventura foram construídas no jogo se entrelaçam muito bem com a temática do título, ou seja, tocar flauta o tempo.

Tempo é um assunto fascinante, algo dificil até de ser definido e um jogo abordá-lo de forma significativa, com certeza diz muito. O tempo em OoT é encantador não devido às especulações quânticas da trajetória inter-dimensional de Link ao suspender a Master Sword de seu pedestal (curiosamente esse assunto já foi publicado num artigo do blog científico Scientific American*), o tempo em OoT é fascinante porque diz muito sobre como nós mesmos enxergamos os efeitos dele, nos apresentando cenários e personagens com muitas características familiares e depois nos mostrando o resultado da ação do tempo neles.

Já foi citado como The Legend of Zelda – Ocarina of Time entrou para a história dos games, mas a afirmação do início de que se trata de um jogo atemporal, não está somente relacionada com o seu legado ou o fato de que ainda se disputem speedruns para quebrar o recorde de salvamento do jogo; OoT é atemporal porque nos cativa com esse universo capaz de avançar para um tempo melancólico e um pouco sombrio, mas também nos oferece a oportunidade de voltarmos a qualquer momento até o passado nostálgico e mais alegre. Por que isso cativa? Porque apesar de toda fantasia de espadas e ocarinas mágicas, existem conceitos familiares nos personagens e momentos vividos pelo protagonista que remetem às nossas vidas e como encaramos a passagem do tempo.
A partir daqui vou explicar quais foram as impressões que esse jogo me deixou pensando nessas experiências mais de uma década após ter assistido o cavalgar de Epona no amanhecer pela primeira vez.

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Jardim de infância

Nosso pseudo-elfo inicia sua jornada sendo acordado por sua nova fada madrinha, Navi, designada pelo patriarca do vilarejo, a grande árvore falante Deku Tree, para guiá-lo em sua aventura. O vilarejo tem um tom jocoso e é habitado pelos kokiris, eternas crianças com fadas ao estilo Peter Pan. Futuramente descobriremos que Link não pertence a mesma espécie deles, isso fica evidente quando Link adulto, mais alto e mais velho, retorna ao vilarejo e encontra os kokiris com a mesma aparência que tinham sete anos antes. O jogo nos conta que essas diferenças entre o protagonista e seus vizinhos, tornam Link uma ovelha negra, ele era o único kokiri sem fada e por isso acabou sendo um pouco hostilizado pelos colegas.

Explicando agora minhas impressões, é claro que nem todas crianças que jogam Zelda automaticamente se identificam como crianças excluídas, mas a jornada para pertencer a um grupo e o terror de ser rejeitado é parte das nossas vidas desde os primeiros anos escolares.
Nesse cenário inicial alguns personagens também assumem papéis familiares, como a grande árvore com arquétipo paternal ao tutorar nosso herói no objetivo de sua jornada/vida; Saria, amigos que fazemos na infância, mas que não podem nos acompanhar no decorrer dessa jornada e Mido, que age como o bully expulsando Link, motivado por ciumes como a maioria dos valentões de escola.

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Levando a vida em Hyrule

A música acompanha a virada aventuresca e agora somos apresentados à grande planície de Hyrule, que cruzaremos dia e noite para alcançar fortes, lagos, vilas e castelos. Aqui se inicia realmente Ocarina of Time, numa árvore próxima à entrada do bosque a coruja Kaepora Gaebora assim como um professor pedante da escola, nos da informações que provavelmente iremos ignorar porque assim como Link, somos jovens e estamos ansiosos para conhecer o que esse novo mundo nos aguarda.

A saída de Link de sua terra natal significou literalmente a saída de casa do herói, mas pode representar também o início desse processo enquanto amadurecemos. Um jovem que sai de casa para ir buscar seu primeiro emprego, não se sentiria mais preparado do que o pequeno aventureiro em sua busca pelas três pedras espirituais.

Conhecemos logo na trama a personagem que da nome ao jogo, e como seria de se esperar, com ela se relaciona a maior parte dos objetivos da aventura de Link. Apesar de em nenhum momento ficar explícito qualquer pretensão romântica entre os dois, Zelda compartilha o legado da Triforce e tem objetivos idênticos ao protagonista (até mesmo usando técnicas de luta como o nosso guerreiro) então apesar de não ser o meu palpite preferido, acho que ela é a personagem que mais representa a cumplicidade, o compromisso e o objetivo compartilhado que associamos ao casamento, numa futura vida a dois.

Tendo uma meta definida, Link então desbrava as profundezas de uma caverna vulcânica e as entranhas de um grande peixe sagrado, para que somente então, o jogo apresente o item que o batiza e mostre a grande reviravolta dessa história, o mundo de Hyrule num tempo futuro.

Os efeitos do tempo

O tempo não foi nada gentil com Hyrule. Logo ao sairmos do templo do tempo, vemos que o mercado da capital deixou de existir, deixando somente escombros e zumbis tarados perambulando, enquanto o castelo de Hyrule, agora castelo de Ganon domina imponentemente o cenário. Os habitantes da capital foram obrigados a migrar para o não tão prospero vilarejo Kakariko, lar de galinhas vingativas e da guardiã Impa. Ali descobrimos que o coveiro faleceu e que um grande mal tomou conta das catacumbas no interior do cemitério do vilarejo. Mais acima, no topo da Montanha da Morte, vemos a cidade dos comedores de pedra gorons habitada somente por um pequeno goron fugitivo e assustado, seus conterrâneos foram quase todos raptados e aprisionados. As notícias também não são boas no domínio das sereias zoras, onde a fonte foi congelada, nem na vila dos kokiris, onde as criaturas da floresta invadiram a área que era protegida pela árvore Deku e agora os anões estão presos em suas casas. Nem mesmo a principal fazenda de Hyrule escapou, o invejoso e egoísta Ingo foi promovido a proprietário do rancho às ordens do próprio rei do mal. Esse futuro é distópico e desolador, de fato, se não fosse a possibilidade de reverter muito do mal causado entrando em alguns dungeons e acabando com as criaturas de Ganondorf, esse jogo seria bastante melancólico.

Mas nem tudo são trevas, é até comovente saber que a amizade cultivada com o goron Darunia se manteve forte, a ponto dele batizar seu próprio filho com o mesmo nome de nosso protagonista, é magnifico ver a égua Epona reconhecer ao chamado da canção da mãe de Malon após tanto tempo, é triunfante sair do lar dos kokiris como um rejeitado e retornar para salvá-los como um guerreiro que cresceu porque teve obstáculos maiores, enquanto os kokiris ficaram estagnados no tempo (sim eu sei que eles não podem crescer). É muito agradável ver como as garotas que Link conheceu cresceram e até se reinventaram.

Esse é o retrato fiel do tempo como nós observamos, as vezes um poderoso inimigo, outras vezes, um verdadeiro salvador. Em nossas vidas nem sempre tão fantásticas, vemos que tudo está em constante mudança: Pessoas mudam a forma de pensar, mudam o relacionamento que tínhamos com elas, se mudam para outros lugares; lugares que gostamos deixam de existir; pessoas podem mudar de posição social (não importa o que pensemos sobre isso). Por outro lado, mudanças podem ser muito positivas, com o tempo, como reencontrar antigos amigos que mudaram para melhor, antigos amores e pensar que estamos bem, superar antigos medos, antigas frustrações; receber ao mundo nossos filhos. Pessoas morrem e pessoas nascem, muitas vezes assumindo o mesmo papel da geração anterior entre erros e acertos. O tempo traz um pouco disso tudo e não há como lutar contra isso.

Talvez o próprio Ganondorf, olhando além de suas intenções megalomaníacas, represente por meio de suas ações tudo aquilo que não gostamos sobre as mudanças, mas que ao enfrentarmos com coragem e persistência, aprendemos como amadurecer e nos tornamos mais fortes.
Ou talvez isso tudo seja um significado que eu acabei encontrando enquanto pensava no porquê gosto tanto desse jogo. Seja como for, Ocarina of Time representa hoje para muitos que tiveram o prazer de tê-lo jogado próximo de seu lançamento como eu, uma possibilidade real de atravessar o tempo, Para isso, basta devolver o cartucho mágico ao seu receptáculo e ligar o console para voltar no tempo numa história inesquecível...

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*https://blogs.scientificamerican.com/guest-blog/the-ocarina-of-time-travel-extra-dimensions-and-branching-universes/
Editado pela última vez por Dinofauro Rei em Seg, 30 Jul 2018, 20:06, em um total de 1 vez.
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Re: OCARINA OF TIME – Uma História Atemporal

Mensagempor Vinimenezes » Seg, 30 Jul 2018, 00:04

Sempre incrível perceber como histórias nos envolvem, fazendo a gente se identificar diretamente com as personagens, seja de forma direta, ou indireta. Toda jornada começa com um botão de ligar... Muita nostalgia
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